“Nós não podemos ter um governo de ódio”, diz Doria em entrevista

(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

Incapacidade de dialogar e tendência incorrigível de causar conflitos desnecessários são os maiores equívocos do governo Bolsonaro, na avaliação de João Doria (PSDB). Em entrevista ao programa CB.Poder, parceria entre o Correio e a TV Brasília, o governador de São Paulo disse acreditar que o Executivo federal desperdiça tempo, energia e oportunidades com discussões irrelevantes ante as enormes carências do país. Além de agredir a democracia brasileira, os ataques despropositados e ofensas à imprensa dificultam — e muito — a superação dos impasses econômicos na agenda nacional. O clima de conflagração atrapalha até mesmo integrantes do governo bem conceituados por Doria, como Paulo Guedes e Ricardo Salles. Apesar de se considerar um crítico respeitoso de Bolsonaro e ter votado no então candidato em 2018, Doria vê graves equívocos na conduta presidencial. “Não é cabível a um presidente da República estimular a convocação da população para atacar o Congresso Nacional”, diz.

Arrepende-se de ter feito campanha com Bolsonaro em 2018?

Eu não fiz campanha com ele. Quero esclarecer que eu não fui o criador da expressão “BolsoDoria”. Essa expressão nasceu no interior do estado de São Paulo, vindo de uma camada, sobretudo de classe média, que desejava a eleição de Bolsonaro como presidente da República e a nossa eleição ao governo de São Paulo. Evidentemente, adotei isso na nossa campanha, mas nem conversei com o presidente, não estive com ele. Fiz campanha e votei nele, quero deixar isso bem claro. Até porque, eu não voto em branco e não voto nulo. Nunca votei e não vou votar. Assim como nunca votei e não vou votar no PT.

Votar não significa endossar?

Como eu, milhões de brasileiros votaram contra o PT ao votarem em Jair Bolsonaro. Mas isso não implica ter de concordar com certas atitudes que, inclusive, discordo. Temos de respeitar os jornalistas, respeitar o direito à liberdade de imprensa, respeitar os artistas e o meio ambiente. São princípios básicos que fazem parte de uma democracia. Há vários outros aspectos também, mas isso é essencial. Temos de entender que o contraditório faz parte da democracia. Não existe unanimidade, só nas ditaduras. E delas queremos distância.

Onde o governo erra mais?

Na falta de diálogo e na falta de entendimento. Algo que é básico. O governo tem uma equipe econômica boa, a meu ver. Mas, muitas vezes, tem seu conjunto de ações comprometido por conflitos desnecessários de ataques que dificultam o foco no crescimento econômico do país para atração de investimentos. Nós estamos ocupados discutindo questões como eleição de um ano e três meses atrás, questões ambientais, com conduta equivocada. Não  estou questionando Ricardo Salles (ministro do Meio Ambiente), que é uma pessoa com boa formação e me dou bem com ele, mas o clima de conflagração passou a dominar este governo. Nós não podemos ter um governo de ódio. Vi e vejo isso nas ditaduras. Não acho que esse seja o caminho do Brasil.

O crescimento econômico de São Paulo em 2019 foi de 2,8%, bem acima do PIB nacional, de 1,1%. O governo erra nas decisões econômicas?

Temos em São Paulo uma boa equipe na área econômica, sob a liderança de Henrique Meirelles, e uma estrutura boa de governo. Os secretários que iniciaram a gestão no governo de São Paulo, em janeiro de 2019, continuam na mesma posição em março de 2020. Nós não perdemos tempo gerando conflitos, não perdemos tempo acusando um secretário, não investimos um tempo precioso para fatos conflituosos. São Paulo, orgulhosamente, faz parte do Brasil. Não somos uma nação independente, mas, se tirarmos o PIB de São Paulo do PIB nacional, o crescimento diminui para menos de 0,50%. 

É uma crítica a Paulo Guedes?

Não estou menosprezando o trabalho do ministro Paulo Guedes. Eu gosto dele. Paulo Guedes teve poucas oportunidades de ir ao exterior para vender o Brasil, como nós fizemos. Fiz sete viagens internacionais no ano passado. Em todas elas, nós conquistamos investimentos. Cada missão internacional representou atração real de investidores para o setor privado e para os programas de desestatização. Temos ação, trabalho em equipe, credibilidade, marcos jurídicos claros, agilidade de aprovações ambientais, aprovações de investimentos, tudo isso deu bons resultados.

O governo federal não tem política clara em relação ao meio ambiente. Isso atrapalha os negócios?

Atrapalha e muito. O grande tema do Fórum Mundial em Davos era o clima. O ministro Paulo Guedes acabou representando o presidente Bolsonaro, que desistiu de ir. Guedes só defendeu aquilo que era difícil: a política ambiental do Brasil. Em vez de falar dos temas de desenvolvimento econômico, privatizações do governo, do programa robusto de desestatizações, ele ficou o tempo inteiro se defendendo. Muita pressão acaba gerando isso. Na primeira intervenção em Davos, ele disse que a culpa do desmatamento era da pobreza. Aí, eu fiquei até com pena do Paulo Guedes, porque é um homem bom, tenho confiança nele. E ele continuou afirmando que a culpa do desmatamento era da pobreza. 

Falta humildade ao governo?

Sim. É preciso ter humildade. Eu erro também, todos nós erramos. Não há nenhum problema em reconhecer um erro, dar um passo atrás. Ninguém é mal-avaliado por reconhecer seu erro. Você é mal-avaliado por não reconhecer o seu erro. Então, nós temos de ter uma política ambiental correta. Na Europa e no Japão, não fazem mais recomendação de investimentos no Brasil, enquanto o país não tiver claramente uma política de defesa ambiental e de proteção climática.

O senhor tem uma boa relação com o ministro Ricardo Salles. Chegou a conversar sobre isso com ele?

Não tivemos essa oportunidade. Mas o Ricardo Salles tem uma boa formação jurídica e universitária. É um homem preparado. Existem várias pessoas despreparadas no governo, que não citarei, e outros deveriam até ir para um sanatório para avaliar a questão psiquiátrica. Tem até um que trafega pela área da educação que devia ser internado. Mas não é o caso do Ricardo. Quando você entra numa atmosfera de conflagração de disputa, uma verdadeira rinha de galo, até uma pessoa preparada, muitas vezes, acaba perdendo a linha de equilíbrio. Ele é bastante incisivo nas suas posições. Ele foi secretário de Meio Ambiente do Geraldo Alckmin, mas faltou bom senso, equilíbrio e paz para que pudesse trabalhar melhor.

A maioria dos casos de coronavírus no Brasil está em São Paulo. O senhor está preocupado?

Sim. O primeiro caso foi anunciado no carnaval. Imediatamente, criamos um comitê chamado Central de Contingência. Convidei o doutor David Uip, que é reconhecido como melhor infectologista do Brasil. Já foi secretário de Saúde do governo Geraldo Alckmin. Pedi a ele que convidasse outros especialistas e acadêmicos da USP para compor esse grupo e tomar decisões, ao lado do nosso secretário de Saúde, José Henrique Guerra, a fim de proteger São Paulo e adotar as medidas corretas no tratamento da doença.

E o Ministério da Saúde?

Quero ressaltar que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi extremamente correto na sua conduta, e os médicos sanitaristas têm agido muito bem. O governo Bolsonaro está se comportando bem na área de saúde. Em São Paulo, em uma reunião de duas horas, decidimos antecipar a vacinação contra a gripe para 23 de março. Decidimos produzir 75 milhões de vacinas contra a gripe, antecipando e permitindo o fornecimento ao Ministério da Saúde para que a vacinação pudesse começar antes.

O presidente disse que há um superdimensionamento na questão do coronavírus. Concorda?

Concordo. Não há razão para pânico. Mas isso não significa que não tenhamos de fazer um acompanhamento diário, ter cuidados preventivos. Não há nenhuma necessidade de cancelamento de aulas, como aconteceu numa escola internacional em São Paulo. Foi uma medida totalmente desprovida de fundamento médico e sanitário. Também houve o caso de escritório financeiro que, por causa de uma pessoa infectada, dispensou todos os seus funcionários por 15 dias para trabalhar de casa. Não havia necessidade disso. É preciso consultar especialistas caso a caso.

O que o Brasil precisa fazer para minimizar fatores externos que afetam fortemente a economia?

É preciso, primeiro, ter paz e  equilíbrio. Em uma situação em que você questiona Legislativo, Judiciário, imprensa, formadores de opinião, cultura, gera conflitos desnecessários. O diálogo é a base da democracia. Com paz e equilíbrio, é possível desenhar um programa econômico que seja viável para o Brasil, de forma a atrair investimentos internacionais e gerar empregos. O melhor programa social para o país é a geração de empregos.

O presidente Bolsonaro disse ter provas de que foi eleito no primeiro turno em 2018. O que acha disso?

Eu não lembro de já ter visto alguém que tenha sido eleito duvidar da sua própria eleição. O sistema eleitoral brasileiro é um dos mais modernos, eficientes, tecnológicos e protegidos do mundo. Eu sou filiado ao PSDB desde 2001. Quando o partido perdeu as eleições com Aécio Neves, questionou o processo eleitoral e mandou auditar as urnas eletrônicas do TSE. Tivemos acesso a toda a tecnologia e constatamos que não houve nenhuma fraude. Então, você não pode questionar o processo de uma eleição mais de um ano depois. Isso descredencia o Tribunal Superior Eleitoral, que é um tribunal sério, bem composto, bem estruturado e que opera reconhecidamente muito bem. Eu não sou desrespeitoso com o presidente. Eu respeito aqueles que são eleitos pelo voto popular. Mas posso discordar, evidentemente. O presidente tem uma personalidade difícil de interpretar. Qual a razão de alguém que foi eleito democraticamente questionar a eleição um ano e meio depois? Não conheço na história republicana alguém que questionou sua própria eleição.

Há alguma alternativa ante a polarização que insiste em continuar? 

A resposta é o centro democrático liberal. Eu não sou nem esquerda nem direita, sou uma pessoa que sempre gosta de dialogar. Com a direita, com a esquerda, não seus extremos, porque os extremos não gostam de dialogar. Nenhum extremista gosta de dialogar; ele gosta é de impor suas posições. Mas há pessoas à esquerda com os quais os diálogos são construtivos, assim como à direita também. É assim que você fortalece a democracia: dialogando, conversando. O contraditório ajuda você a ser melhor. Mas há uma enorme faixa de centro que pode atender os anseios de uma parcela considerável da população para uma opção mais equilibrada. Eu não vejo as eleições de 2022 nesses dois polos (direita e esquerda) apenas. Até porque, isso facilitaria ainda mais uma opção de centro equilibrada e experiente. Nós não podemos mais viver tentativas no Brasil. Estamos vivendo uma agora — não estou desmerecendo nem quem está no governo nem quem pode estar no futuro, mas não podemos ter mais testes. Temos de ter convicção de uma opção para o Brasil que seja segura, de gestão, de interação e diálogo, que coloque o Brasil verdadeiramente no caminho do crescimento econômico.

Como avalia a movimentação de manifestações para o próximo domingo, com ataques às instituições?

É ruim. Eu defendo a liberdade de expressão plena, assim como defendo a liberdade de imprensa. Eu sou jornalista também. Já fui até líder em movimentos de rua em São Paulo. Fui muito criticado e até ameaçado quando fiz o movimento contra o mensalão do ex-presidente Lula em São Paulo. Na época, Lula estava com 73% de aprovação. Então, os movimentos populares são legítimos e bons. Mas um movimento para desqualificar o Congresso Nacional e o Judiciário, isso não é contributivo para a democracia. Você defender suas posições em período eleitoral não só é admissível, como faz parte da democracia. Agora, convocarem movimentos para desqualificar deputados e senadores, isso não é democracia. Esse não é um gesto que vai contribuir com o Brasil. Não é cabível um presidente da República estimular a convocação da população para atacar o Congresso.

E Luciano Huck? Vai o senhor ou ele contra Bolsonaro?

Não é hora de falar sobre as eleições de 2022. Nós temos eleições municipais em outubro deste ano para eleger prefeitos e vereadores. Há uma precipitação também do presidente Bolsonaro. Ele cometeu um erro. Ele não pode, com três meses de gestão, se colocar como candidato à reeleição. Isso é algo inédito no país. Não é hora de tratar disso. Nós temos de tratar de pacificar o país, melhorar a administração, gerar investimentos, empregos e reduzir a pobreza. Essa é a prioridade. Falaremos da eleição de 2022 em 2022.

Colaborou Israel Medeiros, estagiário sob supervisão de Carlos Alexandre de Souza