Liberalismo: modo de usar

O discurso em defesa das liberdades política, econômica e religiosa – a tríade da soberania individual – ganhou força no debate eleitoral deste ano graças a alguns candidatos que ousaram quebrar tabus em seus programas e entrevistas.

Ninguém tem mais medo de desafiar o consenso estatista. Em São Paulo temos liberais como Paulo Batista – do criativo “raio privatizador” –, no Paraná o corajoso jornalista Paulo Eduardo Martins, em Brasília o brilhante economista Adolfo Sachsida, entre outros liberais clássicos e liberais conservadores em vários estados do Brasil, além do presidenciável pastor Everaldo (do qual pretendo tratar em outro artigo).

É uma benção que, através do discurso do pastor Everaldo e de outros cristãos liberais, esse contraponto ideológico esteja alcançando também o segmento evangélico, que antes ficava à mercê da pasmaceira socialista contrabandeada para as igrejas por meio da “Teologia” da Missão Integral.

Sem contraponto, o besteirol da TMI conquistou força e espaço imerecidos nas igrejas.

Alguns deles até podem ser bem-intencionados. Mas defendem tantas bobagens que podem ser facilmente acusados de colaborar com a perpetuação da miséria daqueles que julgam representar. O socialismo piora a vida dos pobres. É um fato histórico incontestável.

As propostas econômicas socialistas, em todo lugar onde foram aplicadas, terminaram em mais pobreza, opressão política e ruptura do tecido social. O teste da História é bastante claro quanto aos efeitos trágicos da utopia dos que pretendem construir o Paraíso na Terra.

“O mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes”, dizia o grande pensador liberal Roberto Campos. É também dele a triste constatação segundo a qual o liberalismo está tão distante do Brasil como o planeta Terra da “Constelação de Ursa Maior”.

Sou um conservador, mas bastante simpático ao liberalismo clássico que foca na economia livre, a soberania individual e o respeito às instituições. Respeito este que hoje está em falta no arsenal discursivo histérico dos baluartes da Missão Integral.

Liberalismo e igreja

Mas não sou um intelectual orgânico do tipo que é cego em relação aos problemas das ideias que defende (como Ariovaldo Ramos) e devo dizer que nem todo liberalismo é benigno.

Ao contrário, determinado tipo de liberalismo sempre manifestou certa hostilidade anticlerical. Liberais que militam contra a religião porque são racionalistas, ou seja, acreditam que devemos construir um consenso racional sobre o melhor modo de vida.

O economista Frederic Hayek fez o rastreamento histórico destes dois tipos de liberalismos que entraram em confronto na História desde a Revolução Francesa e que hoje ainda persiste, pois o liberalismo anticlerical se refez em seitas radicais e utópicas.

Hayek chamou de liberalismo clássico aquele que não pretende se basear em consensos sobre como se deve viver, acolhe diversos modos e visões de mudo, e não deposita fé demasiada na Razão e aposta no desenvolvimento espontâneo das sociedades humanas.

E chamou de liberalismo continental o tipo que manifesta total fé na Razão e, por meio dela, pretende conceber uma sociedade próxima da perfeição. Os liberais continentais acreditam que a sociedade perfeita deve ser resultado de um consenso racional.

Em uma de suas obras, o historiador Ubiratan Borges de Macedo definiu:

No liberalismo continental há uma hostilidade a partidos políticos e facções e um entusiasmo imoderado pela unanimidade. Um assembleísmo caracteriza o liberalismo continental como expressão de uma sempre sonhada democracia direta.

Ubiratan lembrou que “um racionalismo abstrato” define os continentais, e um racionalismo moderado evolutivo, atento às peculiaridades locais e nacionais, o liberalismo clássico.

Não por acaso, até hoje há entre os liberais vestígios dessa divisão histórica. É o que se pode constatar neste ótimo artigo publicado no site do Instituto Ludwing Von Misses Brasil.

Os liberais continentais – cujo radicalismo se assemelha com o dos libertários – são tão danosos à religião quanto os marxistas utópicos para os quais a crença em Deus é um problema.

Qual é o uso correto do liberalismo? Defendo um liberalismo moderado, capaz de mitigar as paixões, corrigindo suas falhas estruturais e sem a pretensão de dar resposta a todos os males humanos – pecado capital de todas as ideologias de esquerda.

Os socialistas divinizaram o Estado. Devemos evitar o erro oposto: divinizar o mercado.

Há situações em que o mercado é infinitamente superior a qualquer solução estatal. Mas há outras em que a presença do Estado é legítima – segurança pública, por exemplo.

O liberalismo deve ser neutro em relação às questões religiosas, mas jamais deve ser hostil diante de tradições religiosas porque supostamente são irracionais – como reclamavam os liberais continentais e hoje fazem alguns libertários de apartamento.

O melhor do liberalismo se encontra, teoricamente, e se concilia pragmaticamente com o melhor do conservadorismo. Não são poucos os autores que identificam convergências entre o liberal Hayek e o pai do conservadorismo moderno, Edmund Burke.

O excelente artigo de Samuel Pereira mostra essa aproximação:

Tanto Burke como Hayek possuíam uma visão idêntica, de que as instituições sociais são o produto de um complexo processo histórico, caracterizado pela experimentação, ou seja, por tentativa e erro. Para ambos, as condições para que uma sociedade floresça estão no necessário respeito e compreensão pelas forças que mantêm a ordem social, que não deve ser alvo de manipulação e controle por parte de teorias que pretendam acabar com ela…

O grande mal da esquerda é a pretensão de reprogramar a sociedade de acordo com determinada teoria. A esquerda acredita em receita de bolo para fazer o mundo perfeito.

Os liberais e os conservadores devem ficar longe dessa tentação utópica. É um pecado que resulta em desgraça econômica, política e moral.